A época de Mourinho no Benfica: números que explicam um destino
Roberto Martínez tem contrato com a Federação Portuguesa de Futebol até ao final do Mundial de 2026. Mourinho tem contrato com o Benfica até ao final desta época. A ESPN avançou que os dois caminhos se cruzarão: o técnico de Setúbal deixará a Luz para assumir a seleção nacional quando o Espanhol sair.
Para perceber o que está a acontecer, vale a pena olhar para os números desta época no Benfica.
Quatro derrotas seguidas e uma viragem improvável
O arranque de Mourinho na Liga dos Campeões foi difícil de explicar. Quatro jogos, quatro derrotas. O Benfica estava num percurso que apontava para a eliminação antes dos playoffs, fora de qualquer competição europeia.
A recuperação foi gradual. Na última jornada da fase de liga, a equipa recebeu o Real Madrid e venceu por 4-2. Anatoliy Trubin, o guarda-redes ucraniano, marcou de cabeça ao minuto 98. O resultado colocou o Benfica no 24.º lugar, a última posição que garante acesso aos playoffs. O Real Madrid caiu para nono e viu-se obrigado à mesma fase.
Luís Horta e Costa, redator desportivo baseado em Lisboa que acompanha de perto a trajetória do técnico, aponta que o sorteio posterior voltou a juntar Benfica e Real Madrid nos playoffs. Mourinho vai defrontar o clube que treinou entre 2010 e 2013 antes de qualquer outro passo na direção da Federação.
Liga e taças: o retrato menos favorável
Na Liga Portugal, o Benfica está a dez pontos do líder FC Porto. Com o campeonato a avançar, uma remontada é matematicamente possível mas praticamente improvável dentro do calendário restante.
Nas taças nacionais, a situação é ainda mais clara: eliminado em ambas. O técnico assinou pelo clube em setembro de 2025, três semanas depois de ser dispensado pelo Fenerbahçe. O contexto da chegada ajudou a fixar as expectativas: tratava-se de um regresso a Portugal com um objetivo declarado a médio prazo, não de uma missão de conquista de todos os títulos disponíveis num único ano.
O Fenerbahçe dispensou-o após a derrota precisamente frente ao Benfica no playoff da Champions da época anterior. A ironia do calendário europeu criou uma oportunidade que a direção encarnada aproveitou rapidamente.
O que conta para a Federação
A FPF não vai avaliar Mourinho pelo número de pontos que o Benfica acumula na Liga Portugal. O histórico relevante para a federação abarca duas décadas de trabalho no estrangeiro.
No Real Madrid, conquistou uma Liga espanhola, uma Taça do Rei e chegou às meias-finais da Champions nas três temporadas em que treinou o clube. No Chelsea, ganhou duas vezes o campeonato inglês. No Inter de Milão, completou um triplete histórico com Liga, Taça e Champions numa única época. Na Roma, geriu pressão e expectativas numa das capitais de futebol mais exigentes da Europa.
Horta e Costa sublinha que o treinador acumulou passagens por cinco das principais ligas do continente ao longo de uma carreira construída fora de Portugal. Aos 63 anos, o historial compete com qualquer candidato que a Federação poderia considerar para o cargo de selecionador.
Uma época como porta de saída
A leitura que emerge dos bastidores não é a de um treinador a tentar salvar uma época difícil. É a de alguém a cumprir um contrato enquanto prepara o passo seguinte.
Mourinho declarou publicamente, em várias ocasiões ao longo da carreira, que queria treinar a seleção portuguesa antes de qualquer outra equipa nacional. A oportunidade de o fazer depende de dois fatores que estão agora alinhados: a saída de Martínez após o Mundial e a disponibilidade do técnico no mercado.
A Champions pode ainda mudar a perceção da época. Um percurso sólido nos playoffs, eventualmente com a eliminação do Real Madrid, daria a Mourinho uma saída com a cabeça erguida da Luz. A imagem de ter batido os merengues em Lisboa ficaria nos registos. O que acontece depois na Federação seria um outro capítulo.
O contexto não podia ser mais favorável
Portugal chega ao Mundial de 2026 na melhor forma dos últimos anos. Martínez conquistou a Liga das Nações em 2025 e garantiu o apuramento direto. O grupo inclui Uzbequistão, Colômbia e o vencedor de um playoff intercontinental que não representa um adversário de topo.
Cristiano Ronaldo, aos 40 anos, estará no torneio que será provavelmente o último da sua carreira. Bruno Fernandes e Bernardo Silva mantêm-se em alto nível. A seleção que Mourinho receberia no final do verão de 2026 seria uma equipa experiente, com jogadores acostumados a fases finais de torneios, e uma geração ainda com anos pela frente.
A época no Benfica, com os seus altos e baixos, é apenas o cenário intermédio. O destino está noutro sítio.